LEMBRANDO ADEMILDE FONSECA, PELA PRÓPRIA ADEMILDE FONSECA, A RAINHA DO CHORINHO BRASILEIRO

Posted by casciano in Comportamento, Cultura, Pessoas | Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Leave a comment

 

Ademilde Fonseca, a Rainha do Chorinho do Brasil, passou para o andar de cima na noite desta última terça-feira (27), no Rio de Janeiro.

Contava 91 anos, completados no último dia 4 deste mês que se finda.

Ademilde sofria de problemas cardíacos.

Ela morreu de um mal súbito, segunda sua neta, Ana Cristina.

Dona de um espírito jovem, Ademilde continuava suas atividades e gravou dois programas para Globo News na última segunda-feira (26), um dia antes da sua morte.

Esteve em Porto Alegre, fazendo shows, na semana passada.

De acordo com o que está publicado na maioria dos jornais e em muitos blogues de notícias na internet, Ademilde deixa uma filha, Eimar Fonseca, também cantora, três netas e quatro bisnetos.

O enterro da cantora será realizado no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Lembro de ter estado com Ademilde Fonseca alguns anos passados em São Paulo, exatamente no SESC Pompéia, onde o meu amigo Pelão (foto acima), apelido do produtor musical João Carlos Botezelli, promovia o lançamento de mais um pacote de cds da coleção de 100 cd´s e 8 livros, intitulada “A Música Brasileira deste Século, por seus Autores e Intérpretes”, editada pelo SESC – São Paulo.

Pelão é o maior pesquisador e produtor de mpb do país.

O cara que descobriu o genial Cartola e produziu seus discos.

A coleção “A Música Brasileira deste Século por seus Autores e Intérpretes”, teve sua pesquisa e produção de Pelão, junto com Arley Pereira.

Na coleção, que é uma realização do SESC São Paulo, em convênio com a Fundação Padre Anchieta, que perpetua o conteúdo – fala e música – dos programas “MPB Especial” e “Ensaio”, criados, produzidos e conduzidos por Fernando Faro, inicialmente, em 1969, para a extinta TV Tupi e, em seguida, para a TV Cultura, está Ademilde Fonseca.

No cd da sua história, Ademilde Fonseca, nascida em Pirituba, aqui no Rio Grande do Norte, contou sua história inteira, mas sem esquecer de cantar músicas maravilhosas. Quem não se lembra de ‘Tico Tico no Fubá’. E o ‘Brasileirinho’ que ela eternizou cantando maravilhosamente.

 

LEIA A TRANSCRIÇÃO DO CD-DEPOIMENTO DE ADEMILDE FONSECA:

(Material produzido há 10 anos)

Ademilde Fonseca completou, neste dia 4 de março, 81 anos de idade. Seu depoimento para esta coleção, tem apresentação de Moacyr Andrade que reproduzimos na sequência:

“A cantora potiguar Ademilde Fonseca é talvez para a contrariedade de alguns puristas despidos de um mínimo de condescendência, que receberam sua ousadia como atentado a um gênero sem mácula, a fixadora de uma das modalidades de maior aceitação de nossa música popular: o chorinho com letra. Ademilde é a soberana inconteste dessa vertente desde que praticamente a patenteou, em julho de 1942, ao lançar em selo Columbia (mais tarde a gravadora Continental, de tanta história em nossa discografia) a versão com versos do eterno e mundialmente conhecido Tico-Tico no fubá, do compositor paulista (Santa Rita do Passa Quatro) Zequinha de Abreu.

A letra era de outro paulista, Eurico Barreiros, e Ademilde já cantava, conhecendo-a da transmissão oral, menina da escola primária em Natal. Nascera ali perto da capital rio-grandense-do-norte, na cidade de Macaíba, em 4 de março de 1921. Viera para o Rio, já casada e com uma filha, em 1941.

O sucesso imediato e geral do Tico-Tico cantado puxou o de outros choros clássicos: Darcy de Oliveira fez uma festa para Apanhei-te Cavaquinho, de Ernesto Nazareth, e João de Barro providenciou outra para Urubu Malandro, de Lourival de Carvalho, adaptado de antigo motivo popular fluminense. Os choros passaram a ser feitos também com poemas e Ademilde gravava um êxito após outro, sempre acompanhada de conjuntos liderados por chorões virtuosos, da estirpe mais genuína, como, por exemplo, o flautista Benedito Lacerda, o violonista Garoto, o clarinetista Abel Ferreira, o saxofonista K-Ximbinho (por sinal, seu conterrâneo e de quem gravou duas obras-primas, os choros românticos Sonoroso e Sonhando) e o cavaquinista Waldir Azevedo (voz e interpretação de Ademilde têm muito a ver com o agrado universal de Brasileirinho e do Baião Delicado).

Na Rádio Clube, Rádio Tupi, Rádio Nacional, cantou em geral escoltada por formações chefiadas por expoentes do nível de Rogério Guimarães, Claudionor Cruz e Severino Araújo, com cuja Orquestra Tabajara, em 1952, foi cantar choros em uma das festas inesquecíveis do milênio, o baile do Castelo de Coberville, nos arredores de Paris, com o qual o estilista Jacques Fath apresentou o algodão à alta-costura européia.

Ademide Fonseca, celebrada em um primor de chorinho a ela dedicado pela dupla João Bosco-Aldir Blanc, Não tem sucessoras: Ninguém chega perto da espantosa agilidade e do andamento realmente vertiginoso com os quais sem perder um mínimo da perfeita dicção e do timbre viçoso alterou a trajetória do choro. Concedeu esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, em 1997, com 76 anos de idade.”

Moacyr Andrade

Depoimento de Ademilde:

 

O brasileiro quando é do choro

É entusiasmado

Quando cai no samba

Não fica abafado

E é um desacato

Quando chega no salão

Não há quem possa resistir

Quando o chorinho brasileiro faz sentir

Ainda mais de cavaquinho com pandeiro

E um violão na marcação

Não há quem possa resistir

Quando o chorinho brasileiro faz sentir

Ainda mais em cavaquinho com um pandeiro

E o violão na marcação

Brasileirinho chegou a todos encantou

Fez todo mundo dançar a noite inteira no terreiro

Até o sol raiar

Quando o baile terminou

A turma não se conformou

Brasileirinho abafou, abafou

Até um velho que já estava encostado

Nesse dia se acabou

Pra falar a verdade

Estava conversando com alguém de respeito

Ouvi um grande choro

Dei logo um jeito

Deixei o camarada falando sozinho

Sozinho

Gostei, pulei, dancei, pisei

Até me acabei

Nunca mais esquecerei o tal chorinho

Brasileirinho

O brasileiro quando cai no choro

É entusiasmado

Quando cai no samba

Não fica abafado

E é um desacato

Quando chega no salão

O brasileiro quando cai no choro

É entusiasmado

Quando cai no samba

Não fica abafado

E é um desacato

Quando chega no salão

Não há quem possa resistir

Quando o chorinho brasileiro faz sentir

Ainda mais de cavaquinho com pandeiro

E um violão na marcação

– Brasileirinho, Waldir Azevedo/Ruy Pereira da Costa. Copyright Todamérica Música Ltda (ADDAF).

 

“Bom, eu nasci num dia 4 de março de 1921. É bom dizer o ano porque eu não aparento mesmo!

Sou filha de uma família de dez irmãos, quer dizer, vida difícil, para criar dez pessoas. Nem todos cantaram como eu, tiveram felicidade de ter o dom de cantar, mas não concluí porque fiquei muito aborrecida por não ter passado em português. Quando eu sabia a  matéria, o professor não me chamou e por isso hoje não sou uma professora, sou então uma cantora.

Eu nasci no Rio Grande do Norte, lá em Natal, num lugarejo chamado Pirituba, que tinha assim, umas poucas casinhas. Foi ali que eu nasci e com quatro anos eu vim para capital. Ali estudei no Grupo Escolar Antônio de Sousa, fiz ali o curso elementar. Hoje tudo é diferente, eu também já não sei mais nem falar, contudo tudo. Mas, como já falei antes, fiz até o primeiro ano Normal. Eu me criei no bairro do Tirol, ficava entre Tirol e Petrópolis, na avenida Afonso Pena, número 517. Vai jogar no bicho? É cachorro, né? Eu sei.

Minha casa era uma casa de uma porta, tinha uma janela assim bem alta, um batente, aquele degrauzinho que a gente sobe. Tinha muita areia na rua onde eu morava e eu brincava todas as noites ali de joelho nas marcas dos carros que por ali passavam. Brincava de roda, uma opção de brincadeiras, de melancia porque às vezes a barriga tava inchada, melancia tá boa! E várias cantigas de roda, a gente se unia em rodas e cantava muita, muita música bonitinha que hoje até foi gravada comercialmente.

Não lembro agora. (Cantarola) Ciranda, Cirandinha….

Nós éramos uma família pobre. Papai trabalhava na estrada, como chefe daquela equipe que estava cortando mato e abrindo estradas. Mamãe era costureira de roupa masculina e fazia todo o serviço da casa.

Eu tenho uma irmã de 87 anos, que é como se fosse uma segunda mãe, ajudava, aprendeu a costurar e nós íamos vivendo. Mas eu me casei cedo.

Música começou muito cedo na minha vida. Com quatro anos eu aprendi a cantar um chorinho, era mole? Eu tinha que ser fisgada, tinha que ser flechada por esse gênero tão maravilhoso, tão nosso, tão difícil também. Hoje eu já percebo que o choro é uma música difícil de cantar, quem cantar está de parabéns. Eu canto, mas hoje já passaram-se os anos, eu tenho mais de 50 anos de carreira. Agora, estou vendo que o choro é difícil, porque ele era apenas instrumental e veio uma “metida” a cantar choro. Foi engraçado o começo do choro, porque foi numa festa. Aí, eu já estava no Rio, já tinha me casado. Pode começar agora este item?

Bem, por aí eu trabalhei no comércio, numa companhia de capitalização de seguros, era datilógrafa. Mas eu comecei a namorar um violonista, que não me dava a mínima, mas eu achava que ele tocava, então  fiquei gamada assim, né? Violão igual do Edmilson, do Osvaldo. Esse regional aqui maravilhoso. Eu fiquei na cola dele justamente porque ele não me dava muita confiança, eu ficava ali… até que consegui, me casei, tive uma filha um ano depois. A família do meu marido tinha bastante prédios em Natal, bastante com o que viver. Mas nós viemos pro Rio, era uma dupla de violões, Nadil e Lil. Viemos pro Rio pra ver se eles começavam a ter gosto pelo trabalho, porque eles viviam de renda. Mas aí não aconteceu. Nadil, que era o meu marido, bebia muito. Um foi trabalhar no Instituto do Sal e o outro não quis trabalhar em lugar nenhum, ficou no insosso mesmo. Mas bebia muito, também comia muito. Eu sentava na mesa pra ver ele comer, minha sogra cozinhava muito bem e ele tinha o apelido de “sete bóia” ou “nove bóia” , sei lá.

Ah, é isso aí. A vida me trouxe pro meio artístico que eu tanto desejei quando comecei a ler as revistas Carioca e outras mais, Cigarra.

Renato Murce entrou na minha vida quando a dificuldade começou lá em casa, já aqui no Rio. O dinheiro que o procurador mandava já não estava dando pra muita coisa. Eu já tinha uma filha, era dificuldade mesmo. Tínhamos umas amigas que eram amigas do Gastão do Rego Monteiro, que era locutor chefe da Rádio Clube, PRE-8, hoje é Rádio Mundial. E lá fui fazer um teste, apresentaram-me ao Renato Murce e eu fiz um teste pra ele com um samba de Odete Amaral (Ademilde quis dizer interpretação de Odete Amaral), batucada em Mangueira. Vamos lá, gente? Era assim:

 

Foi numa batucada em Mangueira

Que eu fui com um moreno que eu tinha

Pra ele aprender a sambar

Ficamos na roda de samba a noite inteira

Meu Deus, como estava gostoso sambar a luz do luar

Mas uma nuvem passou e o céu se escureceu

E o samba que estava tão bom findou

Batucada em Mangueira…

 

Bom, eu gostava de Odete Amaral e como prova cantei até uma música que ela tinha gravado na época. Mas o Nadil, meu marido, se ligava muito na Aracy de Almeida, gostava, e todo disco que pintava novo, lá por Natal nós íamos até as casas onde revendiam, eu ouvia bastante, aprendia. Naquela época, saiu uma reportagem com aquele samba que Aracy de Almeida gravou, que foi um sucesso.

 

(Música com Aracy de Almeida, emenda com Ademilde)

Ai, ai, meu Deus

Tenha pena de mim

Todos vivem muito bem

Só eu vivo assim

Trabalho e não tenho nada

Não saio do miserê

Ai, ai, ai, ai, ai, ai, meu Deus

Isso é pra lá de sofrer

Ai, ai, ai, meu Deus

Todos vivem muito bem

Só eu que vivo assim

Trabalho e não tenho nada

Não saio do miserê

Ai, ai, meu Deus

Isso é pra lá de sofrer

É ou não é?

– Tenha Pena de Mim (Ai Meu Deus). Cyro de Souza/Babahu. Copyright by Irmãos Vitale AS Indústria e Comércio. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. All Rights Reserved. International Copyright Secured.

 

Olha, Carmem Miranda era uma pessoa… eu não conheci, mas tinha uma vontade tremenda de conhecer a Carmem Miranda. Eu já estava no meio artístico quando ela apareceu pelo Brasil, mas eu não aparecia naquele meio onde ela aparecia, que era com, Almirante, talvez Dircinha e Linda, nem sei como era. Eu sei que (cantarola) “Eu fiz tudo pra você gostar de mim”, fiz pra conhecê-la e, apesar de ela já estar sem vida, fui conhece-la antes de ser sepultada. Foi ali que conheci Carmem Miranda, naquela fila imensa que se fez na Câmara dos Deputados. Eu fui também pra conhecer a Carmem Miranda por ter assim uma paixão também por ela. E a Carmem Miranda representou muito na minha vida, porque Aloísio de Oliveira, aquele que era do Bando da Lua, que acompanhava Carmem Miranda lá nos Estados Unidos, ele teve a idéia de gravar comigo doze músicas de Carmem Miranda, eu gravei e reputo um dos melhores trabalhos da minha carreira. Todos os números com arranjos do maestro Gaia, que também já é saudoso. É um dos melhores trabalhos que eu tenho e adorei cantar músicas de Carmem Miranda. Eu lembro. Eu lembro da…

Vestiu uma camisa listrada

E saiu por aí

Em vez de tomar chá com torrada

Ele bebeu parati

Levava um canivete no cinto

Eu um pandeiro na mão

Sorria quando o povo dizia

Sossega leão

Sossega leão

Tirou o seu anel de doutor

Para não dar o que falar

Saiu dizendo em quero mamar

Mamãe, eu quero mamar

Levava um canivete no cinto

E um pandeiro na mão

Sorria quando o povo dizia

Sossega leão

Sossega leão

– Camisa Listrada. Assis Valente. Copyright 1937 by Irmãos Vitale AS Indústria e Comércio. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. All Rights Reserved. International Copyright Secured.

 

Olha, foi o Benedito Lacerda, aquele grande Músico, grande flautista e grande compositor, que me deu a maior mão para que eu aparecesse no meio artístico. Ele tinha muitas cantoras. Não como hoje, hoje tem muita gente na estrada, é difícil a gente aparecer. Mas foi por intermédio do Benedito Lacerda que, numa festa lá na Gávea, onde ele me levou como uma pessoa para participar dos shows deles músicos, e ele solou Tico-Tico no fubá. Pra que solou? Cheguei no ouvido dele e falei: “Eu sei a letra dessa música”. Ele falou: “Sabe nada, menina. Não tem letra”. Eu digo: “Tem. Dá uma abaixadinha que eu vou cantar pra você”.

 

Um tico-tico só

O tico-tico lá

Está comendo todo, todo meu fubá

Olha o seu Nicolau

Que o fubá se vai

Pego no meu pica-pau e o tiro sai

Então eu tenho pena

Do susto que levou

E uma cuia cheia de fubá eu dou

Alegre, voando e piando

Meu fubá, Meu fubá

Saltando de lá para cá

Um tico-tico só

O tico-tico lá

Está comendo todo,todo meu fubá

Olha o seu Nicolau

Que o fubá se vai

Pego no meu paca-pau e o tiro sai

Então eu tenho pena

Do susto que levou

E uma cuia cheia de fubá eu dou

Alegre,já voando e piando

Meu fubá, meu fubá

Saltando de lá para cá

Houve um dia porém que ele não voltou

O seu gostoso fubá o vento levou

Justifiquei,quase chorei

Mas então vi

Logo depois não era um e sim já dois

Quero contar baixinho a vida dos dois

Tiveram ninhos e filhinhos depois

Todos agora por aí saltam ali

Comendo todo o meu fubá

Saltando de lá para cá

Um tico-tico só

O tico-tico lá

Está comendo todo,todo meu fubá

Olha o seu Nicolau

O meu fubá se vai

Pego no meu pica-pau e o tiro sai

Então eu tenho pena

Do susto que levou

Então uma cuia cheia de fubá eu dou

Alegre e já voando e piando

Meu fubá, meu fubá

Saltando de lá para cá

– Tico-Tico no Fubá, Zequinha de Abreu/Eurico Barreiros. Copyright by Todamérica ( ADDAF )

 

É isso aí.

Foi o primeiro disco o Tico-Tico no Fubá. Quando eu regravei, foi o meu cartão de visita, foi um sucesso, vendeu por muitos e muitos anos. Do outro lado tinha um samba do Benedito Lacerda e Darcy de Oliveira, também muito bonito.

 

Depois que ele desceu do morro

Passa fome pra cachorro

Ofereço meu socorro

Ele diz que não quer

Não, não, não quer

Não, não, não quer

Diz que não depende de favores de mulher

Diz que não quer

Diz que não depende de favores de mulher

Diz que não quer

Depois que ele desceu do morro

Passa fome pra cachorro

Ofereço meu socorro

Ele diz que não quer

Não, não, não quer

Diz que não depende de favores de mulher

Diz que não quer e  com isso vai sofrer meu coração

E não há quem faça este homem mudar de opinião

Pra viver na cidade atirado nas ruas como um cão

Ele que volte pro morro e que venha viver no meu barracão

Depois que ele desceu do morro

Passa fome pra cachorro

Ofereço meu socorro

Ele diz que não quer

Não, não, não quer

Diz que não depende de favores de mulher

Diz que não depende de favores de mulher

Diz que não depende de favores de mulher

– Volte Para o Morro,Darcy de Oliveira / Benedito Lacerda.Copyright by Irmãos Vitalle S/A Indústria e Comércio. Todos os direitos autorais reservados para todos os paises. All Rights Reserved. International Copyright Secured.

 

É isso aí.

 

Eu conheci o Pixinguinha. Agora, o Pixinguinha era uma pessoa maravilhosa, adorável, doce. Basta dizer que era um gênio o Pixinguinha, aquele homem também muitas vezes calado, talvez porque estivesse bem tocado do álcool, que ele bebia muito. Conta-se até uma história de que ele foi assaltado uma vez na rua e o ladrão acabou não… Ele levou o ladrão pra casa, acordou a mulher dele, mandou fazer comida e foi tanta gentileza que os ladrões acabaram entregando tudo de volta a ele. Pra ver a doçura do Pixinguinha. Era maravilhoso, mas pouco falava e por isso pouco eu posso falar do Pixinguinha. Mas posso dizer alguma coisa dele cantando, é claro.

 

Tu és divina e graciosa

Estátua majestosa, do amor

Por Deus esculturada

Formada com o ardor

Da alma da mais linda flor

Do mais ativo olor

Que na vida é preferida pelo beija-flor

Se Deus que fora tão clemente

Aqui neste ambiente

De luz, formado numa tela

Deslumbrante e bela

O teu coração junto ao meu, lanceado

Pregado e crucificado

Sobre a rósea cruz do arfante peito teu.

Tu és forma ideal

Estátua magistral

A alma perenal

Do meu primeiro amor

Sublime amor

Tu és, de Deus, a soberana flor

Tu és de Deus, a criação

Que em todo coração sepultas o amor

O riso, a fé, a dor

Em sândalos olentes

Cheios de sabor

Em vozes tão dolentes

Como um sonho em flor

És Láctea estrela

És mãe da realeza

És tudo enfim que tem de belo

Em todo resplendor

Da santa natureza

Perdão,

Se ouso confessar-te

Que eu hei de sempre amar-te

Ó flor, meu peito não resiste

Ó meu Deus, como é triste

A incerteza de um amor

Que mais me faz penar e esperar

Em conduzir-te um dia ao pé do altar

Jurar-te aos pés do Onipotente

Em preces comoventes

De dor

E receber a unção da tua gratidão

Depois de remir meus desejos

Em nuvens de beijos hei de te envolver

Até meu padecer de todo fenecer.

– Rosa, Pixinguinha /Otávio Souza, Copyright by Mangione.

 

Eu gravei tantas coisa e já há bastante tempo, mas é justo que se preste até essa homenagem pra deixar com o maior carinho para todos aqueles que nem me conheceram. Tem novas gerações aí que não conhecem. (Pausa: chora) “ Perdão, se ouso confessar-te”.

Urubu veio de cima

Com fama de dançador

Urubu chegou na sala

Tirou dama e não dançou

Urubu veio de cima

Com fama de dançador

Urubu chegou na sala

Tirou dama e não dançou

Ora, dança urubu

Eu não, senhor

Tira a dama, urubu

Eu sou doutor

Urubu chegou de fraque

Cartola e calça listrada

Urubu deixa de prosa

Vem cair na batucada

Urubu chegou de fraque

Cartola e calça listrada

Urubu deixa de prosa

Vem cair na batucada

Ora, dança, urubu

Tira a dama, urubu

Ora, dança, urubu

Tira a dama urubu

Urubu perdeu a fama

E se desmoralizou

Apanhou a melhor dama

Foi dançar, encabulou

Urubu perdeu a fama

E se desmoralizou

Apanhou a melhor dama

Foi dançar, encabulou

Ora, dança, urubu

Eu não, senhor

Tira a dama, urubu

Eu sou doutor

Ora, dança, Osvaldo

Eu não, senhor

Ora, dança, Edmilson

Eu sou doutor

Ora, dança, Betinho

Eu não, senhor

Ora, dança, Haroldo

Eu sou doutor

Ora, dança, Jane do Bandolim

Eu não, senhor

Ora, dança, urubu

Eu não, senhor.

– Urubu Malandro, Louro/João de Barro.

 

[Emenda de improviso]

 

Minha vizinha tinha um galo pequenino

Era ladino aquele galo garnisé

Eu sem querer pisei no pé de uma galinha

Ele cantou quequerequé e beliscou-me aqui no pé

Com a vizinha muito tempo que eu não falo

Peguei o galo e a vizinha nem deu fé

Se a vizinha reclamar qualquer coisinha

Eu vou pegar a minha faquinha

E vou matar o garnisé

Eu não me conformei com tal situação

Peguei o garnisé

Cortei-lhe o esporão

Agarrei o bichinho

Amarrei pelo pé

Ele deu um pulinho

E fez, querequequé, quequé

Eu não me conformei com tal situação

Peguei o garnisé

Cortei-lhe o esporão

Agarrei o bichinho

Amarrei pelo pé

Ele deu um pulinho

E fez quequerequé, quequeré quequé

Quequeré quequé

E lá no terreiro

Ele é o primeiro que canta ligeiro

Quequerequé, quequeré quequé

Quequerequé, quequerequé

Ninguém entra no galinheiro

No poleiro nunguém põe o pé

O rei do terreiro é garnisé.

Que Que Quereque,

– João da Baiana. Copyright by BMG Mus. Publ. BR. Ltda. ( ADDAF)

 

Peguei vocês. De improviso, gente.

Olha, havia muitas pessoas que gostavam, faziam e tocavam choro. Eram Rogério Guimarães, Dilermando Reis, o saudoso Abel Ferreira. Todos são. Saudosos amigos, colegas. Claudionor Cruz, Portinho! Que mora aqui em São Paulo, Luiz Americano. É de Sergipe, é da terra do Fernando Faro, é mole? Mas tem que prestar essa homenagem, grande praça. Pixinguinha, Benedito Lacerda. E o que tem de chorões por aí, né? E aqui os meninos, e esse grupo aqui não conta nada? Ainda tem o Marco Antônio, que é raça nova, tem Deo Rian, Zé da Velha, Dino, violão. Dino ainda tá lá, tem que botar tapete vermelho pra ele passar. Quando eu vejo ele na rua, digo: “Tá faltando o tapete vermelho prá você passar aqui, meu filho”. Dino que ainda, graças a Deus, está com vida. Têm muitos chorões. Ah, Raul de Barros. Pára-quedista.

 

Você me disse que dançava e que no choro era o tal

Pára-quedista apareceu para lhe deixar mal

Agora fica reclamando que dançou sem conhecer

O tal chorinho gostozinho

Que obriga o corpinho a mexer.

 

Waldir Azevedo, meu Deus, quem pode esquecer do grande sucesso de Waldir Azevedo. Já cantei dele no inicio o Brasileirinho. Foi um grande sucesso. O baião delicado, que vou cantar pra vocês agora, com aquela mesma vozinha, acredite.

 

Quero um baiãozinho

Que seja bem gostozinho

E seja delicadinho

Escute com atenção

Aqui está o baião

Falando ao coração

Veja como ele é tão delicado

Faz até pensar

No amor que ficou no passado

Eu sei que o mundo vai me dar razão

Pois levo a consolação de tal amor

No qual alguém perdeu a flor

É que o baião relembra agora

O nome sempre varia

Para uns o nome é Maria

Glorinha, Rute ou Aurora

A todos, o nome é inesquecível

Esta é a verdade

Embora pareça incrível

Eu provo que todos vivem sempre a esconder

Ouça o que o amor pode fazer

Faz gemer assim

Ui, ui, ui, ui, ui

Ai, ai, ai, ai, ai,

Ninguém pode esconder demais a sua dor

Porque assim mais cresce ainda o mal do amor

Fingir que é feliz é uma ilusão

Só magoa o nosso coração

Faz gemer assim

Ui, ui, ui, ui, ui

Ai, ai, ai, ai, ai,

Será que é mais ousado e, quando terminado

Irá pedir outro baião.

Faz gemer assim

Ui, ui, ui, ui, ui

Ai, ai, ai, ai, ai,

Será que é mais ousado e, quando terminado

Irá pedir outro baião.

 

Bom, gravei de Waldir Azevedo esse grande sucesso, vendeu, “estourou” num mês. Hoje se vende muitas cópias. Você imagina que eu não tenho um disco de ouro nem um disco de platina, você vê! Mas na época vendeu muito, assim a cota, foi um grande sucesso, todo mundo sabe disso, ele subiu de preço, ultrapassou o carnaval, foi uma coisa fabulosa na carreira o baião Delicado. Agora são outros valores, né? Agora, a coisa tá mudada. Acho que eu até merecia um disco de ouro, mas não faz mal, não tem importância. Eu já chorei hoje por isso aqui, porque vai ficar pra sempre esse depoimento, vai ficar do Chorinho. Ainda falando de Waldir Azevedo, eu gravei dele, acho que em 56, Pedacinho do Céu com letra de Miguel Lima.

 

Sei que me amas com grande fervor

Há, em teus lábios mil frases de amor

Entretanto, eu preciso ouvir a voz da razão

Para saber se direi sim ou não

És para mim formoso troféu

Vejo em ti pedacinhos do céu

Porém, preciso refletir mais um pouquinho

Para não desiludir o meu dorido coração

Que ainda sente a emoção de uma ingratidão

Afinal com amor,  fervor e muito apreço

Eu agradeço a grandeza, a beleza

E a riqueza do troféu

Julgo-me feliz, pois sempre quis

E tudo fiz para exaltar um grandioso amor

E incluí neste chorinho

Entre carinhos

Pedacinhos lá do céu

Afinal o amor com fervor e muito apreço

Eu agradeço a grandeza, a beleza

E a riqueza do troféu

Julgo-me feliz, pois sempre quis

E tudo fiz para exaltar um grandioso amor

E incluí neste chorinho

Entre beijos e carinhos

Pedacinhos lá do céu

És para mim um famoso troféu

Vejo em ti pedacinhos lá do céu

Porém, preciso refletir mais um pouquinho

Para não desiludir o meu dorido coração

Que ainda sente a emoção de uma ingratidão

– Pedacinho do Céu, Waldir Azevedo/Miguel Lima.

 

Bom, Nazareth, sei que era um grande músico, um grande compositor. Não conheci o Nazareth, mas realmente dou nota, a maior nota dez pra tudo que ele fez. Ele transformou até este Odeon, que era um tanguinho, transformou num choro e aquele famosíssimo poetinha colocou uma letra linda, linda, linda.”

 

Ah, quem me dera

Meu chorinho

Tanto tempo abandonado

E a melancolia que eu sentia

Quando ouvia ele fazer tanto chorar

Porém me lembra

Tanto, tanto no recanto do passado

Que era lindo, era triste, era bom

Igualzinho a um chorinho chamado Odeon

Versando flauta, cavaquinho

Meu chorinho se desata

Tira da canção do violão

Esse bordão que me dá vida e que me mata

É só carinho meu chorinho

Quando pega e chega assim

Devagarzinho, meia-luz, meia-voz, meio-tom

Meu chorinho chamado Odeon

Ah, vem depressa, chorinho querido, vem

Mostra na graça o que um choro sentido tem

Quanto tempo passou

Quanta coisa mudou

Já ninguém chora mais por ninguém

Ah, quem diria que um dia, chorinho meu

Você viria com a graça que o amor lhe deu

Pra dizer não faz mal, tanto faz, tanto fez

Eu voltei pra chorar com vocês

Chora bastante, meu chorinho

Teu chorinho de saudade

Diz ao bandolim pra não tocar tão lindo assim

Porque parece até maldade

Ah, meu chorinho, eu só queria

Transformar em realidade

A poesia, ai que lindo, ai que triste, ai que bom

Um chorinho chamado Odeon

Chorinho antigo

Chorinho amigo

Eu até hoje ainda percebo esta ilusão

Esta saudade que vai comigo

Até parece aquela prece que só sai do coração

Se eu pudesse retornar a ser criança

Se eu pudesse renovar a minha esperança

Se eu pudesse me relembrar como se dança

Este chorinho que hoje em dia ninguém sabe mais

Chora bastante, meu chorinho

Teu chorinho de saudade

Diz ao bandolim pra não tocar tão lindo assim

Porque parece até maldade

Ah, meu chorinho, eu só queria transformar em realidade

A poesia, ai que lindo, ai que triste, ai que bom

Um chorinho chamado Odeon.

– Odeon, Ernesto Nazareth/Vinícius de Morais.

 

PAULINHO DA VIOLA: “O choro também é uma parte de mim. Durante toda a minha infância, foi a música que eu mais ouvia, porque meu pai tocou durante muitos anos com Jacob do Bandolim e fazia muitas reuniões de choro na sua casa. Então, praticamente foi a música da minha infância e uma parte do meu espírito é o choro”.

ADEMILDE: “Eu conheço o Paulinho da Viola. Quem não conhece o Paulinho da Viola? Grande cantor, grande compositor, filho de César Faria, violonista do Época de Ouro. Tô por dentro, hein? O Paulinho da Viola me mandou um grande abraço e me fez um pedido. Olha só que pedido que ele me fez. Em vez de pedir pra que eu cantasse a música dele, que eu gravei, ele pediu pra cantar uma música do maestro Carioca, maravilhoso, simpático. Realmente é uma música muito bonitinha. Tomara que saia tudo bonitinho pra ficar pra vocês com todo amor.

 

Você é meu amor

Mas não é meu senhor

Não gosto de ser mandada

Nem por mal nem por bem

Coração é terra que ninguém pisa

Nem você por ser meu bem

É dono de ninguém

Você é meu amor

Mas não é meu senhor

Não gosto de ser mandada

Nem por mal nem por bem

É dono de ninguém

O amor não dá direito de propriedade

Amor é simplesmente uma situação

Que agente aceita com dignidade

Enganando quase sempre o nosso coração

Dou-lhe o meu amor, mas não sou toda sua

Não sou objeto achado na rua

Tenho mil razões para pensar assim

Você é meu amor, mas não é dono de mim

Viu?

Você é meu amor

Mas não é meu senhor

Não gosto de ser mandada

Nem por mal nem por bem

 

Como é que é? Talvez tenha sido a primeira música feminista, mas houveram outras. Ih, se eu for cantar aqui, é até imoral, Deus me livre.

Jacob do Bandolim, chorista, chorão daqueles da melhor qualidade. Ah, eu conheci Jacob. Eu achei que ele gostava de mim pelo seguinte: ele prometeu um armador de roupa – em Natal a gente chama de escapa -, então ele trouxe aquela que fecha, que não aparece, fica só no quadrozinho. Ele me deu de presente um armador pra eu armar uma rede, então achei que ele me destacou com um presente. Eu sou daquelas pessoas, o presente pode ser 250 gramas de margarina, mas eu fico feliz, porque sou uma pessoa simples. Então ele me deu aquele armador de rede e eu adorei, adoro o Jacob e dou maior nota mil pra ele.

Ai , mas que chorinho bom

É só pegar um tom

Depois sair em frente pra tocar

Mas de repente a gente vê

Que são acordes mil

Mas não tem grilo, porque abriram mais um barril

Eh, bota mais um, garçom

Que eu já sai do Tom

Pois o chorinho é mesmo de amargar

E nesse dó, ré, mi, fá, sol

Meu pobre bandolim se machucou no bemol

E o choro vai mesmo assim

Vai mesmo assim

Ta todo mundo afim

Ele vai mesmo assim

Pois a roda de choro não pode parar

Não deve parar

Tem que continuar

E só vai terminar depois do fim

É um remelexo

Remelexo de luz, girando em mim

E é bom girar, girar, girar

Subir e descer como trampolim

Enquanto tiver um barril pra estourar

Você segura esta barra, ta?

Toma cuidado com meu bandolim

Que agora eu volto lá dentro e volto já

Vai,ele vai mesmo assim

Ta todo mundo afim

Pois a roda de choro não pode parar

Não deve parar

Tem que continuar

E só vai terminar depois do fim

É um remelexo

Remelexo de luz, girando em mim

E é bom girar, girar, girar

Subir e descer como um trampolim

Enquanto houver um barril pra estourar

Você segura esta barra, ta?

Toma cuidado com meu bandolim

Que agora eu vou lá dentro e volto já.

– Remelexo, Jacob do Bandolim/Klecius Caldas. Copyright by Todamérica Música Ltda. (ADDAF)

 

Ah, eles colocaram num filme do Alex Viana o choro Lamentos, do Pixinguinha. É maravilhoso e a letra também é maravilhosa porque é letra de poeta, ninguém pode pichar, né? Mais ainda quando o poeta se trata de Vinícius de Moraes. Lamentos, pra vocês.

 

Moreno, tem pena

Mas hoje o meu lamento

Tento em vão esquecer

Mas, aí meu tormento é tanto

Que eu vivo em pranto

Sou toda infeliz

Não há coisa mais triste neste mundo

Que este chorinho que eu te fiz

Sozinha,moreno

Você nem tem mais pena

Ai,meu bem

Fiquei tão só

Tem dó, tem dó de mim

Porque estou triste assim

Por amor de você

Não há coisa mais linda

Mais linda, meu benzinho

Que o meu carinho por você

Meu amor, meu amor

Meus amor, meus amor

Acabou.

– Lamentos, Pixinguinha / Vinícius de Moraes. Copyright by Irmãos Vitalle S/A Indústria e Comércio. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. All Right Reserved. International Copyright Secured.

 

Olha, o Rio dos anos 1940, (cantarola) “quando lá no morro começou o recenseamento”, era um Rio maravilhoso, mais calmo, você podia que andar nas ruas, tinha programas. Naquela época não tinha muito assalto. É claro que havia mortes, de vez em quando havia violência. Mas você tinha muito mais tranqüilidade no Rio antigamente, no Rio de 1940. Já passaram muitos anos e por isso nós estamos sofrendo essa violência, que a gente pede pelo amor de Deus, pôxa, quando tiver que cometer algum crime, alguma violência, pensa naquele que é o maior lá em cima, Deus e o filho dele, Jesus Cristo, que nos dá muita luz.

A guerra? A época da guerra era uma sensação extraordinária. Minha filha era pequenininha, a gente tinha medo, os nossos soldados estavam lá no front, muita gente morreu, que não existe mais, muita gente se acabou naquela época. Mas houve um dia em que houve o fim, como tudo na vida tem fim. Quando chega o fim, acaba tudo, como diz a minha sobrinha Liege. Ela diz: Titia, é porque não chegou o fim. Quando chegar o final, tudo acaba” (ri ).

Uns dizem, outros também falam, outros cobram: “Ademilde, você não cantou mais, temos saudade de você”, isso e aquilo. Eu escuto isso diariamente quando desço pela avenida Copacabana, aquelas senhoras me cobrando, querendo que eu volte a cantar. Não é que o espaço esteja fechado pra mim, é que tem muita gente na estrada, muita gente com que os diretores se preocuparem. Houve uma época em que eu reclamava muito, mas agora já compreendo. É uma mídia em cima, é a gravadora, essa coisa toda. Não é que seja complicado, é uma coisa muito dirigida, muita coisa paga. Eu não tenho dinheiro, né? Por exemplo, vou fazer um cd agora, alguém tem que bancar esse cd. Não é porque eu esteja pobre de marre de si. Graças a Deus, tenho uma vidinha toda controlada, de maneira que estou bem. Em relação ao país, eu acho que naquela época já havia roubalheira, o pessoal já fazia por trás as fraudes. Parece coisa de brasileiro (ri). Brasileiro tem que tomar jeito.

Eu não peguei cinema mudo, mas já estava no mundo. Eu me lembro que um pianista da minha rua lá em Natal tocava no cinema mudo, um tal de Picado. Ah, o cinema mudo! Meu Deus, vamos relembrar aqui uma figura que ninguém esquece, porque é maravilhoso relembrar essa letra de Klécius Caldas e Waldir Azevedo.

 

Eu vi um filme de Carlitos

Que por muito tempo me deixou pensando

Voltei aos tempos de criança

Dando gargalhadas e depois chorando

Na tela do cinema mudo

Ele dizia tudo

Só pela expressão

Posando mudo aquele vagabundo

Foi bem no fundo do meu coração

Você que é todo-poderoso

Vive desgostoso pois quer muito mais

Arranje sua bengalinha,seu chapéu-de-coco

Olhe um pouco pra trás

Dinheiro só lhe deu vontade

De ter mais dinheiro

E muito mais cartaz

Mas a felicidade você não tem

E nem a paz

O céu, o que será?

O céu onde é que está?

Num barracão de zinco ou na maior mansão

Só sei que está em nosso coração

Amor sem ter vintém

Amor sem ter ninguém

Para escolher a gente tem que ter

Tempo e cabeça para meditar

Que as coisas boas dessa vida

Ninguém poderá comprar.

 – Cinema Mudo, Waldir Azevedo/Klecius Caldas. Copyright by Todamérica Música Ltda (ADDAF) .

 

Acho que a melhor lembrança que uma pessoa poderá ter é quando ela se encontra mais ou menos realizada, vê um filho criado, uma música fazendo sucesso, como eu vi fazer sucesso com o baião Delicado, Pedacinhos do Céu e Tico-Tico no Fubá.

Teve uma voz fantasma no programa, vocês ouviram uma vozinha? Não diz um ditado que filho de peixe peixinho é? Vocês conhecem no cinema a dublagem ou dublê. Ela não é totalmente um dublê, mas…(beija) tudo bem, minha filha? Foi muito gostoso você estar aqui presente. Olha aí uma alegria muito grande. Pra todos vocês também conhecerem a Eimar, Eimar – Imagina, imagina, não.

João Bosco. Da nova geração eu tenho João Bosco com muito carinho, porque ele se preocupou em fazer uma música pra mim, um choro. Olha só que beleza. Um beijo, João Bosco, Ângela e todo mundo da família.”

 

Toda a poeira das Reminiscências

Simplicidade e lamento jamais

Pérolas, Língua de preto, Cadência

Mágoas, Cristal, Pedacinhos do Céu

Murmurando, ingênua Migalha de Amor

Saxofone, me diz por que choras?

Ai,Carinhoso e Brejeiro

Chorinho Odeon nas Noites Cariocas

Tira a poeira das Reminiscências

Simplicidade e Lamento jamais

Pérolas, Língua de Preto, Cadência

Mágoas, Cristal, Pedacinhos do Céu

Murmurando, ingênua Migalha de Amor

Saxofone, me diz por que choras?

Ai,Carinhoso e Brejeiro

Chorinho Odeon nas Noites Cariocas

Naquele tempo chorei, Vou Vivendo

Nosso Romance, Ainda me Recordo

Flor Amorosa, Apanhei-te Assanhado

Numa Seresta de Sábado

Eu Vascaíno, mas ela entre mil vibrações

Ademilde no Choro

Eu Vascaíno, mas ela Entre Mil, Vibrações

Ademilde no Choro

– Ademilde no Choro, João Bosco/Aldir Blanc. Copyright by BMG Mus.Publ.Brasil.

(Depoimento de Ademilde Fonseca transcrito do Livro 4, da Coleção “A Música Brasileira deste Século, por seus Autores e Intérpretes”)

Ademilde agora vai cantar e encantar no andar de cima!

É por aí!…

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